Curiosidades do Círio de Nazaré em Macapá

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A primeira procissão do Círio de Nazaré realizada em Macapá aconteceu em 1934, quando as religiosas da Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria, ao comando da senhora Éster Benoniel Levy, esposa do então prefeito de Macapá, major Moisés Eliezer Levy. A pesar da cidade já tr seu padroeiro, São José, cuja festa é realizada todo dia 19 de março, a concentração de romeiros do Círio de Nazaré em Macapá concegue ultrapassar, em volume de massa, os penitentes do próprio padroeiro São José, crescendo a cada ano o número de fiéis.

No Estado ele segue a tradição do Pará, sendo realizada a festa sempre no segundo domingo de outubro. Apesar do grande número de romeiros em Macapá, o Círio é uma festa de paraenses. A presença da Virgem andando pelas ruas de Macapá nesse período, é justificável historicamente. É que Macapá pertencia, juntamente com Mazagão, ao Estado do Pará até 1943, quando foi criado o Território Federal do Amapá.

A confecção da indumentária da santa foi, por alguns anos, obras de uma devota fiel, de nome Raimunda Mendes Coutinho, educadora da fase territorial do Amapá, já falecida, e conhecida popularmente por Dona Guita. Mas a exemplo das religiosas da congregação fundada pelo padre Júlio Maria Lombaerde, várias outras congregações como Religiosas de Maria Menina (Bartoloméa), não mediram esforços para que a maior festa religiosa do Estado tivesse, ao longos dos tempos, um colorido maior.

História do Círio
A devoção a Nossa Senhora de Nazaré data, no Pará, dos tempos coloniais. Rezam as crônicas que um homem pardo, de nome Plácido, pescador de profissão, encontrou, em um taperebazeiro, no meio da mata, uma pequenina imagem da Virgem de Nazaré. Levou-a à sua casa, fez-lhe um altar, conseguiu muitos devotos e em breve a residência humilde do pescador passou a ser local obrigatório da presença dos católicos dos primeiros anos de Belém.

Mas como é comum, a lenda se mistura com a história: diz ela que Plácido levou a imagem para sua casa; e no dia seguinte não a encontrou onde a havia deixado: tinha desaparecido. Voltando a vagar pelo mato, achou-a no mesmo galho do taperebazeiro. E por várias vezes a imagem desapareceu de sua casa, para retornar ao lugar de origem. Ali, então, erigiu o pescador uma capela, dando início à devoção.

As crônicas oficiais narram que Plácido quis erigir, no terreno onde se localizava sua residência, uma capela. Morreu antes de iniciar a obra. Sucedeu-o no culto o devoto Antonio Agostinho, que levou avante o encargo de levantar a ermida. Angariando dinheiro entre a população, ergueu-a de taipa e cobriu-a de palha, no centro do bosque transformado, depois, em modesta praça. Hoje, a paupérrima capela é uma das mais suntuosas igrejas do Brasil, toda revestida de mármore e ouro, contendo verdadeiras obras de arte em seu interior.

Primeiro Círio no Pará
Em 1780 assumia a presidência da Província do Pará, d. Francisco de Souza Coutinho. Ele tornou-se devoto, também, de Nossa Senhora de Nazaré. Determinou, então, que anualmente se fizesse uma feira em frente à capela, concorrendo nela, livremente, os agricultores, inclusive os índios. Passando para a parte religiosa, determinou ainda que se realizasse uma grande romaria, levando a imagem do Palácio do Governo à ermida.
No dia 8 de setembro de 1783 realizou-se, portanto, a primeira trasladação: de noite a imagem foi transportada do Palácio; no dia seguinte, de tarde, o povo e as autoridades levaram-na de volta ao seu nicho.

Com o desenrolar dos anos, o Círio sofreu muitas modificações: a imagem passou a ser transportada em uma berlinda, no lugar de ir no colo do bispo, em um carro puxado por bois; incorporaram o Carro dos Milagres (lembrando o de d. Fruas Roupinho, salvo do abismo por interferência da Virgem); o bote em que se salvariam vários devotos, quando do naufrágio do navio português São João Batista; o Carro das Promessas; o Andor dos Anjinhos; e a famosa corda, puxada pelo povo, tendo no meio a berlinda conduzindo a imagem, as autoridades religiosas, civis e militares.

A origem dos arraiais
No período em que era realizada a festa de Nazaré, que durava de sete a 14 dias, vários romeiros iam do interior do Pará até a Basílica de Nazaré. A maioria não tinha condições para ficar em um hotel, ou não possuía parente algum na cidade. Ao redor da igreja, eles começaram a construir barraquinhas, onde passavam as noites e vendiam iguarias à base de pato no tucupi, bolos, salgados e produtos da terra de origem: uma farinha de mandioca, massa para o tacacá, etc. Esse hábito passou a ser incorporado na festa, formando-se daí os arraiais.

Como vimos no início desse relato, em Macapá a festa surgiu em 1934, já com as barracas que eram construídas rudimentarmente, em frente à Igreja de São José, no local onde hoje é o Teatro das Bacabeiras. Até a década de 60 havia a Barraca da Santa em frente à Igreja, onde eram realizadas as festividades da administração paroquial, acompanhadas de retretas da Guarda Territorial.

Durante todo o período do arraial, a rapaziada ia namorar, se divertir e ter uma descontração sadia. Mas hoje os tempos mudaram. Com o desenvolvimento da cidade chegou o progresso, e as gangues de rua já não deixam mais a moçada se divertir.

Religiosidade em torno da santa
São inúmeras as penitências que os romeiros cumprem durante o trajeto do Círio. Na realidade, cada local tem seu padroeiro e, em Macapá, o esposo de Maria, José, não temeria de modo algum a concorrência quea esposa terrena poderia fazer em torno das homenagens à santa.

Das penitências mais freqüentes, já apareceram mulheres carregando uma bília (espécie de pote) à cabeça, para lembrar que seu filho mais novo foi salvo pela Virgem, de uma crise de verminose, após beber um pouco de água benta do padre, com a invocação de Maria.
Um certo senhor foi visto em 1989, carregando quatro jarros na cabeça. Ao ser interrogado, este senhor informou-me que logo após inúmeros pedidos à virgem de Nazaré, conseguiu finalmente fazer sua casa, em alvenaria.

A presença até mesmo de uma saca de cimento nas costas foi detectada em 1994, quando o penitente, um certo agricultor, explicou que estava trabalhando em sua casa, fazendo um forno para a confecção da farinha. Em um dado momento o fogo se espalhou pela palhoça em que estava fazendo a farinha, e em pouco tempo ela foi consumida pelo fogo. O penitente ficou preocupado porque colocou parte de sua renda, da última safra, embaixo de um saco de cimento que estava exatamente perto do forno de farinha, pois não confiava em seus dois filhos homens que moravam em sua casa, porque poderiam gastar o dinheiro em bebida. Após meditar sobre os prejuízos que teve em razão de um incêndio, um de seus filhos descobriu que embaixo de uma saca de cimento, que sobreviveu ao fogo, estava a fortuna do pai. Em honra à virgem, o penitente resolveu participar de dez círios ininterruptos em agradecimento à Virgem de Nazaré.

Humor e Religião
Mas o Círio também tem seu lado humorístico. Um dos casos se refere a uma devota de 65 anos, que chegando ao então bispo de Macapá, d. José Maritano, esta solicitou ao bispo que pagasse uma promessa que ela tinha feito à santa, e não poderia faze-lo em razão do avançado da idade. A promessa consistia em o bispo correr, da catedral de São José em direção ao antigo prédio da Intendência soltando uma caixa de pistolas. “Mas eu não posso fazer isso, minha senhora, porque a promessa é sua..”. Ao que ela respondeu: “Mas eu já pedi à minha santa padroeira que o senhor me substituísse nessa penitência, porque eu estou muito velha”.

Não adiantou o bispo dizer à penitente que ele poderia tornar a promessa sem efeito. Ela não aceitou, pois “o que a Santa de Nazaré define ninguém pode desfazer, nem mesmo um bispo”. O certo foi D. José Maritano pedir a um sacristão que fizesse o percurso com a pistola.

Arraial, coisa do passado
Uma das grande saudosistas do Círio, que já se tornou ícone da festa, foi a professora Guita, que deu parte de sua vida às festividades do evento. Ela sempre recordava dos primeiros arraiais, “onde a moçada realmente ia se divertir. Não havia violência. A polícia tinha pouco trabalho. O namoro era sadio, as pessoas vinham para a barraca da santa ou participavam de uma pescaria. Canoas, atadas a traves, giravam de um lado para outro conduzindo crianças. Hoje em dia esse cenário não existe mais, e a tendência é deixar o arraial para trás, pois as autoridades do município não dão valor a isto”. Estas declarações foram da professora Guita em 1987.

Realmente o arraial com todo o espetáculo profano resume-se apenas a alguma barracas, e o movimento é maior em torno da barraca da santa, improvisada na quadra do antigo Pensionato.

Tanto no Pará quanto no Amapá, o cerimonial do Círio segue um padrão: na noite de sábado realiza-se a trasladação: a santa é levada de uma igreja paroquial de Macapá a outra. No domingo bem cedo, a cidade inteira acorda com o foguetório. Às sete horas começa a procissão. E durante quadro horas uma fantástica massa humana se comprime nas principais artérias da cidade como há sessenta anos atrás.

Fé, maior instrumental
Questionada ou não, a romaria do Círio de Nazaré segue sem problemas o trajeto da cidade todos os anos. Os penitentes, alheios aos falatórios de fiéis de outras religiões, seguem firme e solenemente a pagar as promessas contraídas em seus momentos mais dramáticos. Nesse clima de paz, o que interessa realmente é a fé, que é o fio condutor de todo esse processo de caminhada da santa. São mais de setenta anos de Círio em Macapá; de esperanças e certezas de uma população católica sedenta de fé à sua virgem, cumprindo o itinerário de devoção à “advogada do povo”, crentes na salvação eterna. É o Círio. É a romaria. É a solene manifestação de fé da população. É a certeza de dias melhores, na criatividade popular de valorizar a mulher que foi a grande causa de tudo isto: o nascimento do Salvador Jesus Cristo!

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